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Usina Ouricuri: do desenvolvimento ao conflito social em Atalaia

A Usina Ouricuri, localizada no município de Atalaia, foi durante décadas um dos principais pilares econômicos da região. Fundada por volta da década de 1920, a usina teve papel fundamental no crescimento local, gerando empregos, movimentando a economia e estruturando comunidades inteiras ao seu redor.

Além da produção de açúcar, a usina também influenciou diretamente na organização social da região, contribuindo para a formação de povoados e sustentando centenas de famílias que dependiam diretamente de suas atividades.

Entretanto, com a falência da usina no início da década de 1990, iniciou-se um período de profunda crise social. Centenas de trabalhadores ficaram desempregados, muitos sem acesso a direitos trabalhistas e sem alternativas econômicas imediatas, o que agravou a pobreza e a desigualdade na região.

Organização dos trabalhadores e aumento das tensões

De acordo com relatos presentes no livro Usina Ouricuri, do autor Manoel Tenório, diante da ausência de soluções por parte das autoridades, os ex-funcionários decidiram se organizar.

Cansados de esperar por justiça, fundaram uma Associação com o objetivo de defender os interesses dos trabalhadores prejudicados. A entidade passou a acompanhar os processos de venda das fazendas e a cobrar o pagamento das indenizações trabalhistas.

A liderança ficou sob responsabilidade de Heloisa Francisca, que assumiu a presidência da associação. Ao mesmo tempo, surgiam divergências com movimentos sociais, especialmente em relação à ocupação das terras, já que os trabalhadores defendiam que a questão trabalhista fosse resolvida antes de qualquer ocupação.

O cenário rapidamente se tornou tenso, com interesses distintos disputando o mesmo território, enquanto a Justiça demorava a apresentar soluções.

Violência e tragédia no povoado Ouricuri

Ainda segundo Manoel Tenório, o período foi marcado por episódios de extrema violência.

Na noite da sexta-feira, 16 de agosto de 2002, a residência da presidente da associação, no povoado Ouricuri, foi invadida por dois homens armados. Sob o pretexto de pedir água, os criminosos se aproximaram e, em um ato brutal, efetuaram vários disparos contra Vilma Francisca dos Santos, filha de Heloisa, que morreu no local.

Outro filho, Cícero Francisco, também foi atingido ao tentar entender o que estava acontecendo, mas sobreviveu ao atentado.

O crime gerou grande comoção e intensificou ainda mais o clima de medo na comunidade. Diversas hipóteses surgiram na época, incluindo a possibilidade de que o alvo fosse a própria líder da associação. No entanto, até hoje o caso permanece sem esclarecimento definitivo.

Conflitos agrários e disputas por terra

O livro também relata que os conflitos não cessaram. As terras da antiga usina passaram a ser alvo de disputas entre posseiros, ex-trabalhadores e movimentos sociais.

Entre os episódios citados está o assassinato de Jaelson Melquíades dos Santos, ligado ao movimento sem-terra, o que reforçou o clima de instabilidade na região.

Em 21 de abril de 2006, após uma série de manifestações em Atalaia, movimentos como MST, MTL e MLST, juntamente com a Pastoral da Terra, ocuparam a fazenda Estrela.

A justificativa apresentada foi de que a área ainda estaria vinculada à antiga usina e deveria ser destinada à reforma agrária. A ocupação durou cerca de uma semana e terminou após negociações envolvendo órgãos como o INCRA, o ITERAL e a Polícia Militar.

Um território marcado por dor e resistência

Conforme descrito por Manoel Tenório, as terras da Ouricuri, que por tantos anos produziram riqueza através da cana-de-açúcar, passaram a testemunhar um cenário completamente diferente, marcado por conflitos, pobreza e sofrimento.

Ao mesmo tempo, também se tornaram símbolo de resistência e luta por direitos, revelando a complexidade das questões agrárias no Brasil e os impactos sociais deixados pelo fechamento de grandes empreendimentos.

Conclusão

A história da Usina Ouricuri representa um marco na trajetória de Atalaia. Mais do que um centro econômico, ela se transformou em símbolo das consequências sociais do abandono e da falta de soluções institucionais.

Os relatos reunidos, especialmente os registrados por Manoel Tenório, ajudam a compreender não apenas os fatos históricos, mas também o impacto humano de uma crise que ainda ecoa na memória da população local.

Fonte: Trechos baseados no livro Usina Ouricuri, de Manoel Tenório.

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